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quarta-feira, 7 de abril de 2021

"Onde quer que você vá, eles estão lá": A trilogia House of Darkness, House of Light

(texto sobre o Volume 1, aqui)

(texto sobre o Volume 2, aqui)


Eles estão entre nós? Ou estão em algum outro plano, no qual apenas uma menor parte da população tem a sensibilidade para vislumbrar?

Talvez seja um pouco dos dois.

Talvez seja um pouco de tudo.

Faz dois meses que terminei de ler os três livros que contam a incrível história real da Família Perron que, entre 1971 e 1980 residiu numa propriedade mal-assombrada em Harrisville, estado de Rhode Island no nordeste dos Estados Unidos.

A grande maioria das pessoas que ouviu falar dessa história pela primeira vez o fez através do filme de James Wan, Invocação do Mal (2013). Eu mesmo estou entre essas pessoas. Mesmo tendo curiosidade em conhecer mais sobre a verdadeira história (o filme cobre, digamos 1%, além de mudar uma série de coisas), só vim a adquirir os livros no final de 2020. 

E sim, a história é muito mais intensa e profunda do que o filme conseguiu mostrar.

Primeiro porque não se trata apenas de uma casa mal assombrada. Toda a propriedade - e provavelmente algumas adjacentes - parece ter a energia acumulada de gerações e gerações de pessoas que viveram e morreram ali. Numa conversa breve com Andrea Perron, por email, eu mencionei pra ela uma diferença básica entre os Estados Unidos e o Brasil nessa questão: nós temos poucas construções com mais de cem anos de idade, apesar de serem países com idade relativamente parecida. Lá, sobretudo na região da Nova Inglaterra, muitas casas remetem aos anos 1800. A própria casa dos Perron em Harrisville foi construída muito antes disso, na década de  1730.

Por mais que muitos ditos especialistas no assunto afirmam ter pleno conhecimento sobre esse tipo de coisa, a verdade é que não sabemos nada. Talvez nunca venhamos a saber.

Talvez não devamos saber.

Quando eu falo "ditos especialistas" também estou incluindo aí os famosos Ed e Lorraine Warren. Na verdade, em muitas áreas, qualquer pessoa que se rotule especialista em alguma coisa está sempre sob o risco de agir com arrogância em algumas situações. É preciso muito preparo mental pra não cair nessa armadilha. Agir com segurança nem sempre deve estar atrelado à prepotência de se achar que se está sempre certo.

Se não fosse por isso, talvez eles não tivessem organizado a desastrosa sessão espírita que ocorreu em 1973 na casa dos Perron. Por mais que uma parte das intenções do casal de investigadores paranormais fosse nobre, é inegável que eles também queriam usar o caso pra ajudar a alavancar suas carreiras.

Depois de tomar conhecimento do caso em Harrisville e de fazer uma primeira visita de reconhecimento do terreno, Ed e Lorraine começaram a citar a família em algumas palestras que davam na época, o que causou um interesse mórbido de pessoas estranhas que iam, de tempos em tempos, incomodar os Perron. Carolyn ficou furiosa e decepcionada, já que no desespero havia depositado nos Warren suas últimas esperanças de resolver o problema na casa.

Humanos são sempre humanos, afinal.

E algumas vezes o buraco é mais embaixo, como diz a frase popular.

Não se tratava apenas de uma casa mal assombrada, como já disse. Em toda a imensa propriedade (descrita por Andrea como tendo 200 acres, o que dá mais de 800 mil metros quadrados) não era raro que uma das meninas, ou mesmo Roger, se perdessem enquanto passeavam pelo terreno. Um lugar grande o suficiente pra horas de caminhada também poderia ser assustador na mesma proporção.

Nancy, a segunda filha mais velha dos Perron, se perdeu em uma ocasião. Vez ou outra ela gostava de pescar no riacho que corta a propriedade pra pescar e certa vez ficou desorientada ao procurar o caminho de volta para casa. Não iria adiantar gritar por ajuda; ninguém iria ouvi-la àquela distância.
Perdida, Nancy sentiu um chamado vindo da floresta, da direção oposta à que ela imaginava ser o caminho para casa. Uma atração familiar e impossível de ser ignorada. Mesmo sabendo não ser o caminho certo, Nancy foi na direção do chamado até que ela se deparou com uma família inteira vivendo numa casa numa clareira. Pai, mãe e três crianças. Nancy sentiu como se fizesse parte daquela família. Momentos depois, a casa desapareceu e Nancy se viu sozinha de novo. Fascinada, a garota foi até o local onde a casa estava e se viu nas ruínas de um porão, que provavelmente fazia parte de uma casa já há muito demolida. Quando chegou ao grande buraco no chão, Nancy sentiu uma forte vertigem e uma força que aparentemente a empurrava pra dentro. A garota se virou e correu, sentindo uma presença atrás dela. Nancy chegou em casa e não contou a ninguém o acontecido... até trinta anos depois, quando Cindy, a mais "sensitiva" das irmãs Perron, lhe contou que passou por uma experiência idêntica no mesmo local na época.
Nenhuma das duas contou à ninguém na época porque Carolyn sempre as advertira sobre andarem sozinhas na floresta. No entanto, o medo de Carolyn era relacionado aos perigos naturais de se viver em meio à natureza. Provavelmente nos primeiros anos ela não fazia idéia de que o grande terreno podia ser tão assombrado quanto a casa em si. Nancy e Cindy nunca mais voltaram às ruínas do velho porão... não sozinhas, pelo menos.

April, a caçula, também via constantemente espíritos antigos na floresta. Na maioria das vezes, se tratavam de fantasmas de nativos americanos, mas ela também via vez ou outra o "pai e filho" que também eram vistos ocasionalmente no topo da escada que levava ao quarto de Andrea. April os via no rio que cortava a propriedade. Era de conhecimento documentado de que um antigo morador do local, Sr. Baker, havia morrido afogado naquele rio, assim como seu filho, dez anos depois.

Várias vezes é mencionado dos livros que a maior concentração de acontecimentos sobrenaturais vinha do porão da casa. Mesmo Lorraine Warren, já na primeira visita, sugeriu que eles lacrassem aquele cômodo.

Numa determinada noite, a família estava  reunida na sala para assistir ...E o Vento Levou. O que era pra ser um momento de paz mudou subitamente quando um som assustador veio do porão, alto o suficiente para fazer as tábuas do assoalho vibrarem e os cachorros latirem sem parar. Todos se assustaram. Carolyn desligou a TV. Roger se levantou imediatamente. Foi até a porta do porão, a abriu e desceu as escadas. Apreensivas, as mulheres da casa esperaram. Momentos depois, Roger voltou. Carolyn, que já havia presenciado atividades paranormais suficientes desde que se mudaram para Harrisville, reconheceu que algo havia acontecido a Roger no porão. Ele se limitou a dizer que a enorme e pesada porta de carvalho que havia lá embaixo, que dava acesso a outro cômodo, havia sido arrancada das dobradiças e tinha sido arremessada a vários metros de distância.
Mesmo muitos anos depois, durante a concepção dos livros, quando perguntado por Andrea se havia visto mais alguma coisa no porão naquela noite, Roger apenas respondia "nada" e encerrava o assunto.

Houve outras duas ocasiões em que o som alto o suficiente para fazer tremer a casa veio do porão. Era algo como uma trombeta. Na segunda vez, ocorreu após uma discussão entre Carolyn e Roger. Novamente ele desceu as escadas até lá, furioso. Quando voltou, Carolyn colocou as meninas, assustadas, na cama e resolveu discutir o assunto com ele.

 - O que aconteceu lá embaixo?
 - Aquela vadia...
 - Você a viu?
 - Não, mas ela me tocou. Nas minhas costas, meus ombros, meu pescoço...
 - Onde você estava quando ela tocou em você?
 - Na porta dos fundos do porão e depois no final da escada, começando a subir de volta.
 - Roger, você não entende? Ela te chamou lá embaixo.
 - Você não pode ter certeza disso. Não tem nada lá embaixo. Nada. Eu olhei em toda parte.
 - Então nada te tocou?
 - Eu não sei o que me tocou.

Eles estavam se referindo à entidade que assombrava o porão - provavelmente a mesma que fez Lorraine Warren dar o alerta sobre o local.
Em diversas ocasiões, quando Roger descia até lá pra pegar alguma coisa ou fazer algum reparo, ele a sentia. Sentia sua presença assim como, muitas vezes, seu toque. Carolyn achava que se tratava de Bathsheba Sherman. Já Roger tinha como palpite que poderia ser o fantasma da Sra. Arnold, a velhinha que se suicidara no celeiro décadas antes.

No total, o som vindo do porão ocorreu em três ocasiões nos quase dez anos que a família Perron morou em Harrisville. Em todas, Roger estava em casa.

*******

 - Carolyn, porque não me disse que essa casa era mal-assombrada?

A pergunta veio numa manhã do verão de 1976, da boca de Frankie, irmã de Carolyn. Ela e a família haviam passado a noite na casa dos Perron; estavam visitando Harrisville pela primeira vez.

  -  Oh Meu Deus! O que aconteceu?
 - Alguma coisa estava parada ao lado da cama, nos encarando e depois se abaixou e puxou as cobertas até nossos pés.
Um pouco depois, no mesmo dia, Roger desceu ao porão junto com Guy, marido de Frankie. Dessa única vez foi Guy quem sentiu o toque do espírito feminino que assombrava a casa.


Em outubro de 1973, em uma noite negra e tempestuosa, Ed e Lorraine Warren chegaram à casa dos Perron. Roger fez questão de estar fora de casa na ocasião, cético que ainda estava, deixando Carolyn e as meninas sozinhas para receberem o casal de investigadores paranormais.
Lorraine aparentemente percebeu desde o início o motivo da ausência de Roger. Carolyn mandou as meninas para seus quartos, pra que fizessem a lição de casa e ficou a sós com os Warren, pra ter certa liberdade em contar tudo que fosse possível sobre os eventos na casa.
Antes de irem embora, Lorraine pediu a Carolyn autorização para andar pelos cômodos do andar de baixo. Quando chegou na porta do quarto do casal - que ficava imediatamente sobre o porão da casa - Lorraine parou e disse que ninguém deveria dormir ali. Carolyn disse que ela e Roger estavam planejando mesmo mudar de quarto, irem pra um outro cômodo da casa.

Algumas semanas depois, Carolyn conseguiu convencer Roger a receber os Warren, na segunda visita do casal à propriedade. Ed e Lorraine também pediram pra entrevistar as garotas. Todos se reuniram na sala e Lorraine colocou um gravador sobre a mesa de centro.

Ed: Todos sabem porque estamos aqui esta noite?

Nancy: Pra falar sobre os nossos fantasmas.

Ed: Por que você os chama de seus fantasmas?

Nancy: Porque eles são nossos se estão vivendo na nossa casa.

Chris: Eles não estão vivendo mais.

Nancy: Você me entendeu. Eles certamente parecem vivos.

Cindy: Eles não sabem que é a nossa casa.

Ed: Como assim?

Cindy: Era a casa deles antes e eles ainda acham que é.

Ed: Como você sabe?

Cindy: Eles me dizem.

Ed: Quando eles falam com você?

Cindy: O tempo todo.

Ed: Como eles falam com você?

Cindy: Dentro da minha cabeça... pela minha testa e nos meus ouvidos. Eu os ouço quando eles vêem à noite, quando as vozes me falam sobre os sete soldados mortos na parede.

Ed: Pode me contar mais?

Cindy: Eu sempre soube que havia um lugar secreto no meu quarto desde que a gente se mudou. Eu simplesmente sabia. Alguém colocou aquela parede muito tempo atrás, mas eu sei que eles estão atrás dela.

Ed. Como você sabe?

Cindy: Eles dizem. E eu os sinto. Quando os espíritos vem à noite, eles falam ao mesmo tempo, as mesmas palavras. É meio assustador. No começo era difícil de entender, parecia um quebra cabeças de palavras. Eles falavam juntos e pareciam muito distantes. Mas ficou mais fácil de ouvir quando eles ficaram mais perto de mim. Eu fiquei muito assustada, mas agora é mais fácil de ouvi-los. Agora parece mais como uma única voz, falando a mesma coisa. Eu odeio quando eles vêm no quarto tarde da noite e chegam perto de mim. O ar fica muito frio, mesmo no verão... e eles fazem meu quarto feder!

Ed: Com que frequência isso acontece, Cindy?

Cindy: Não sei... o tempo todo. É horrível quando eles estão no quarto, mas costumam ir embora quando deixam... aquele cheiro. Quando falam, falam tão alto. Parecem tantos deles...

Ed: O que eles falam exatamente pra você?

Cindy: "Há sete soldados mortos enterrados na parede".

Ed. Algo mais?

Cindy: Somente isso. Nunca é diferente. Então eles me acordam de propósito e falam de novo. Depois de um tempo, começa a parecer uma canção. Eles não estão nem aí se eu vou ter prova no dia seguinte. Eles me acordam, de propósito.

Ed: Eles só aparecem à noite?

Cindy: Esses só aparecem à noite..

Ed: Isso acontece há quanto tempo?

Cindy: Desde que a gente se mudou, acho. Ou um pouco depois. Sempre.

Ed: Com que frequência eles aparecem pra você?

Cindy: Quase toda noite.

Carolyn: Porque nunca me contou isso?

Cindy: Eu contei, muito tempo atrás... da primeira vez. Além disso, não me assusta mais como costumava assustar, mãe. Eu cubro minha cabeça e volto a dormir. Chris dorme no mesmo quarto que eu, então ajuda não estar sozinha. Ela nem os ouve, mesmo se estiver acordada. Eles só aparecem pra mim, mas ela sabe quando acontece, porque eu cubro a cabeça com um travesseiro, pra não ouvi-los. Chrissy fica brava com eles, porque ela também não consegue falar comigo..

Ed: Cindy, mais uma pergunta: Você disse que esses espíritos aparecem pra você à noite. O que quis dizer? Que há outros?

Cindy: Os outros aparecem quando a luz fica estranha no meu quarto. Aquela luz bonita depois do pôr-do-sol. Como você a chama, mãe?

Carolyn: Crepúsculo.

Cindy. É isso. É quando o espírito que me ama aparece e é quando eu vejo a menininha que chora pela mãe.

Ed: Que menininha?

Cindy: A gente achava que eram duas meninas, porque ela aparece com duas roupas diferentes, um de quando está doente e outra de quando está bem. Ela é tão solitária. É muito triste. Me faz chorar também.

Ed: Cindy, Quem é o espírito que te ama?

Cindy: Eu não sei. Ela apareceu quando a luz estava esquisita no meu quarto. Ela veio do closet... então flutuou sobre mim, ao mesmo tempo em que falou comigo dentro da minha cabeça. Aqui... bem na testa. Eu estava na bolha. Ficou frio e barulhento e o chão tremeu. O quarto cheirou tão mal quando ela estava lá. Então ela estendeu os braços, mas não tinha mãos e nem pés. Eu não conseguia me mover. Ela se inclinou sobre mim e me beijou ou me abraçou. Ela queria me tocar. Me falou pra ir com ela. Então eu consegui me libertar e corri pra minha mãe. Eu caí na escada, estava correndo tão rápido. Estava com medo demais. Ela não me machucou, mas é tão feia. Não tinha rosto e eu acho que o pescoço dela estava quebrado. O espírito realmente me ama, mas não quero ir com ela, nunca quis.

Ed: Cindy, O que quis dizer? Você se libertou... do que?

Cindy: Dela. Ela me colocou na bolha. Eu acho que é por causa da luz. É a hora em que nossos mundos são um só.

Tensa, Carolyn forçou uma pausa na entrevista. Era hora de Café e bolo para os convidados. As meninas foram para a cozinha Ajudar Andrea a preparar as coisas. Os Perron e os Warren aproveitaram para conversar entre si.

Numa visita seguinte, os Warren pediram para dar uma verificada nos cômodos do andar de cima. As meninas contaram sobre Manny, o espírito que viram no dia em que se mudaram. Depois de presenciar uma porta se destrancar a abrir lentamente sozinha, Lorraine perguntou a Carolyn sobre o que havia naquele quartinho colado à chaminé. April começou a agir de forma estranha, como se quisesse impedir os visitantes de entrar ali. Lorraine percebeu e agiu de forma indulgente com a menina.

Antes de ir embora, Os Warren sugeriram realizar uma sessão espírita na casa, em breve.
Carolyn considerou a oferta, mas tinha medo de ir longe demais. Algum tempo depois, contou sobre os Warren a sua amiga Fran, assim como a intenção do casal em realizar uma sessão espírita na casa.

Fran: Toma cuidado, Carolyn. É aquilo que dizem, "o inferno está cheio de boas intenções". Talvez os Warren não consigam cumprir o que prometem.

Carolyn: Pensei nisso também.

Fran: Você sabe o que acontece numa sessão espírita?

Carolyn: Só o que o que já li ou vi em filmes. Ficção.

Fran: A menos que você tenha experimentado, você não faz idéia...

Carolyn: Você já?

Fran: Já.

Carolyn: Me conta. Nada de segredos.

Fran: Eu participei de uma sessão espírita e nunca mais vou fazer isso de novo.

Carolyn: Foi na sua casa?

Fran: Não. No meu vizinho. O grupo quis fazer na minha casa também. Fanáticos. Aquela gente não fazia idéia do que estavam fazendo. O poder profano com o qual eles estavam liidando... aquilo me assustou. O que eles libertaram...

Carolyn: Que diabos aconteceu?

Fran: O inferno aconteceu. O inferno na terra.

Carolyn: Jesus, Fran!

Fran: Jesus não tinha nada a ver com aquilo. Ele nem estava lá. Se estivesse, ele teria ficado tão aterrorizado quanto eu fiquei. Nunca mais, Carolyn. Eu falei para aqueles idiotas que preferia conviver com os mortos.

Carolyn: Não me diga que foram os Warren.

Fran: Não. Uns moleques se metendo a entendidos no assunto.

Carolyn: Me conta o que aconteceu.

Fran: Você não quer saber.

Carolyn: Eu quero. Preciso saber.

Fran: Tudo que posso dizer é que era preciso fazer contato com os espíritos pra que eles fossem embora e foi feito contato... não apenas com os espíritos. Uma porta foi aberta naquela noite, uma que eles não conseguiriam fechar, porque não tinham idéia como.

Carolyn: Como convidar o diabo pra que entrasse em casa?

Fran. Exatamente assim. 

Carolyn: Parece perigoso. Mas eu não acredito no diabo.

Fran: Carolyn, não importa como você o chame, existe mal no mundo.

Carolyn: Eu sei. Eu só não engulo toda a propaganda dos chifres e tridente que a Igreja tenta nos enfiar goela abaixo.

Fran: O mínimo de conhecimento já é perigoso.

Fran: Não vou te dizer pra não fazer isso. A decisão é sua. Só vou te dizer que o que eu vi não era desse mundo. Era o mal puro. Veio por ter sido convidado e nunca foi embora daquela casa. Os donos é que foram embora. Há coisas que nós não compreendemos e nunca iremos compreender, não nessa vida. A ignorância é muito perigosa. As pessoas que acham que sabem o que estão fazendo são as mais perigosas. Acreditar na crença dos outros pode ser nocivo à saúde. Antes de fazer algo com relação ao seu problema, tenha certeza que sabe o que está fazendo e o que eles planejam fazer. Não torne as coisas piores. Me prometa isso.

Carolyn: Eu prometo. Eu já disse a eles que não quero fazer.

Fran: Ótimo.

Nesse meio tempo, algo estranho começou a acontecer. Os Perron começaram a ser visitados por pessoas desconhecidas. Curiosos. Carolyn começou a ficar preocupada com a segurança de suas filhas e foi atrás de informações. A resposta acabou sendo um banho de água fria na empolgação inicial que ela havia sentido com os Warren: o casal estava mencionando a propriedade da família Perron em algumas palestras, dando detalhes sobre a localização da casa. Carolyn se sentiu traída, sobretudo por Lorraine.


Quase desde o começo dos eventos ocorridos na casa, Carolyn foi a mais afetada, inclusive fisicamente. Sentia frio o tempo todo. Cansaço. Muitas vezes passava o dia deitada. Tanto Roger quanto as meninas repararam na perda de peso dela. Depois, quando começou a pesquisar sobre o passado da propriedade, Carolyn também entrou numa espécie de fascinação mórbida pela casa. Mesmo os hábitos de vestimentas dela começaram a se alterar. Carolyn passou a usar roupas num estilo mais antigo e algumas palavras de seu vocabulário remetiam a expressões de outros tempos.
Preocupada, Andrea contou isso a Lorraine durante um dos ocasionais telefonemas da Sra. Warren.

Carolyn disse a Lorraine que não gostaria de realizar a sessão espírita. Lorraine insistiu, usando - de forma cruel, talvez - as meninas como justificativa. "Por favor, dê a atenção devida a isso. Se não por você mesma, então por suas filhas. Não acha que elas já conviveram com isso por tempo demais?".

Lorraine convenceu Carolyn a reconsiderar a decisão. Esta, por sua vez, disse a Roger, que concordou, embora totalmente a contragosto. No entanto, tudo indicava que apenas Ed e Lorraine participariam da sessão. Quando chegou o dia, três veículos entraram no quintal, ao anoitecer.
Roger ficou furioso e Carolyn, confusa, mandou as meninas pro andar de cima. Lorraine, por sua vez, tentou argumentar com Roger.

Muitos anos depois, enquanto dava seu depoimento para a escrita do livro, Carolyn afirma não ter quase nenhuma memória daquela noite depois desse ponto.

Na outra sala, através de uma brecha na porta, Andrea e Cindy assistiam a tudo, escondidas.

Carolyn começou a chorar em silêncio, enquanto Roger ainda tentava convencer os Warren a não fazer a sessão na casa. Usava o argumento de que Carolyn estava muito fraca.

Junto com os Warren, chegaram uma médium e uma equipe da universidade, com o objetivo de documentar a sessão espírita. Carolyn começou a ficar letárgica e Roger cada vez mais furioso.

Carolyn batia os dentes de frio.

Vendo que Carolyn não parecia responder, Lorraine pediu aos outros para que a ajudassem a sentar à mesa. A sessão iria começar.

Enquanto Cindy e Andrea assistiam através da fenda na porta, um vento começou a soprar na sala onde estavam os adultos. Cindy reconheceu a sensação; já havia passado por aquilo num dos aposentos mais assombrados da casa algum tempo antes.
Carolyn ergueu a cabeça e começou a murmurar palavras incoerentes. A médium perguntou quem estava lá com eles. Carolyn começou a emanar uma voz que não era dela. Os punhos cerraram, com as unhas quase entrando na carne das mãos. O corpo começou a se encolher entre si, retorcer, até que formava praticamente o formato de uma bola.
Um som gutural saiu da garganta da mulher, como um animal prestes a atacar.
Na outra sala, Andrea sentiu que ia desmaiar.
Carolyn foi tomada por uma espécie de energia negra.
Palavras primitivas continuavam saindo dela. Sons impossíveis da voz humana reproduzir. Sua cabeça foi puxada para trás, com força suficiente pra lhe quebrar o pescoço. E cada grito de Carolyn parecia ser mais alto que o anterior.
Foi Roger, mais apavorado do que já esteve em toda a sua vida, quem resolveu dar um fim ao espetáculo. Gritou que parassem e a cadeira em que Carolyn estava levitou... e foi arremessada, junto com a mulher, ao outro lado da sala. A pancada dela no chão foi tão forte que todos ouviram o ar sair de seus pulmões.
Roger correu até ela. Ed foi atrás, tentando segurar Roger, mas este deu um soco em Ed, que caiu no chão.
Roger carregou Carolyn até o sofá.
Um som repentino sacudiu a casa, vindo do porão. Som de coisas quebrando. Roger sacudia Carolyn para que voltasse. 
Aos gritos, Roger expulsou os visitantes da casa. Ao se virar, Ed descobriu Andrea e Cindy. Mandou que as duas subissem.
Os técnicos desceram até o porão e encontraram todo o equipamento de áudio e video destruído.

Carolyn levou semanas pra se recuperar e aparentemente não se lembrava de nada naquela noite. Roger a culpou por todo o ocorrido.

Com o tempo, a obsessão de Carolyn com a história da casa cessou. A preocupação dela passou a ser lidar com tudo o que acontecia. E, mesmo depois da sessão, muita coisa  ainda acontecia na casa.


Depois de um dia particularmente ruim, Carolyn subiu até o quarto de uma das meninas, pra tentar descansar. Enterrou o rosto no travesseiro e ouviu a trinca do closet se abrir. Em seguida, ouviu passos pelo quarto e em seguida, o som da cadeira de balanço de um lado pro outro. Quando olhou pra ver qual das meninas era, Carolyn viu a cadeira vazia... mas ainda balançando. Ela sabia que quem quer que estivesse ali - ela tinha certeza se tratar de uma mulher - estava zelando por ela.

Os anos passaram. As meninas cresciam. Andrea se formou no colégio. E Roger e Carolyn ficavam cada vez mais distantes.

Em 1979, Carolyn convenceu Roger de que eles precisavam se mudar. Ela disse que não conseguiria sobreviver mais um inverno ali. Ele acreditou nela.

Quando se mudaram, Nancy ficou pra trás, incapaz de deixar a casa. Iria cuidar da propriedade até que os novos donos se mudassem. 

Não muito tempo depois de se mudarem, Roger e Carolyn se separaram.

Apesar dos problemas editoriais da trilogia de livros, é inegável que é uma história extremamente interessante. Embora eu tenha dado muitos spoilers aqui - não gosto de fazer isso - acontecem muitas outras coisas durante os dez anos da família Perron em Harrisville.  Tanto que é impossível, mesmo pra mim, que terminei de ler há pouco tempo, me lembrar de todos. Se trata de uma jornada estranha, comovente, reveladora e, muitas vezes assustadora.

(admito que me afetou de forma pessoal em momentos em que, digamos, eu tenho que levantar da cama à noite pra ir ao banheiro)

Depois de conversar brevemente com Andrea por email, percebi que dificilmente a trilogia sairá aqui no brasil num futuro próximo. Ela me disse que o livro não foi traduzido para outras línguas por uma questão de custo. Pessoalmente, eu acho que seria viável uma versão condensada, talvez em dois livros - isso seria totalmente possível, além de dar um ritmo melhor à narrativa.

Tomara que isso aconteça um dia.

Carolyn e Roger, 1957



Links:

Site oficial da trilogia:

Canal de Andrea Perron no YouTube:

Andrea Perron: Entrevista com Legendas

Andrea Perron: palestra com legendas

A casa, por dentro - com trechos de investigação paranormal

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

House of Darkness, House of Light - Volume 2

(resenha do primeiro livro você encontra neste link)

O segundo volume da trilogia House of Darkness, House of Light, da americana Andrea Perron, tem exatamente os mesmos problemas e virtudes do primeiro livro: a falta de linearidade nos eventos narrados e a excessiva repetição de algumas afirmações durante a leitura. Do meu ponto de vista de leitor, isso atrapalhou um pouco, sobretudo no primeiro terço do livro. O ritmo é quebrado muitas vezes por conta dessas repetições desnecessárias. Em mais de uma ocasião enquanto lia a primeira metade, pensei em desistir da leitura.

Quanto à principal virtude - há outras, mas essa é a mais evidente - é a história em si, que conta sobre os dez anos em que a família Perron morou em uma casa "mal-assombrada" durante a década de 70, em Harrisville, Rhode Island, no nordeste dos Estados Unidos.

O fato da história ser tão interessante foi o que me manteve fiel à leitura até o final e, embora eu tenha usado a expressão "mal-assombrada" no parágrafo acima, o relato de Andrea nos leva a crer que se trata de muito mais do que isso. Eu já havia tido essa impressão durante a leitura do primeiro volume, o que aumentou ainda mais depois de ler a segunda parte.

É nesse volume que entra em cena o casal Ed e Lorraine Warren, investigadores paranormais que ficaram famosos por investigar alguns dos casos mais conhecidos no Século XX como o de Amityville e o de Enfield, na Inglaterra. Na verdade, o que é contado no livro mudou bastante a minha percepção sobre eles... pra pior!

O primeiro terço do livro foca bastante nas experiências de Cindy, a segunda filha mais nova. Das cinco, ela é a que mais tinha essa sensibilidade com relação aos eventos paranormais que ocorriam na casa. Não obstante, era a mais "corajosa" das meninas. Impetuosa também. Esse aspecto em particular lhe trouxe alguns problemas, somados à curiosidade da garotinha.

Foi Cindy que, desde a primeira semana vivendo lá, ouvia constantemente vozes perto de sua cama dizendo "há sete soldados mortos enterrados naquela parede", assim como também era ela quem mais via o fantasma de uma garotinha chorando pela mãe. O curioso nesse caso é que as roupas que a garotinha parecia vestir às vezes eram diferentes, como se cada aparição fosse de um determinado momento diferente da vida dela antes de morrer. Cindy às vezes chorava, comovida pela tristeza da garotinha. Como muitas vezes ela percebia que seus brinquedos estavam em lugares diferentes dos que havia deixado quando saía e depois voltava do quarto, Cindy supôs que fosse a menininha que estivesse brincando com eles. Resolveu que não se importaria com isso, sentindo compaixão pela criança-fantasma.

Mesmo estando relativamente acostumada aos acontecimentos paranormais na casa, não podemos esquecer que nos primeiros anos lá, Cindy era uma criança. Crianças cometem muitos erros antes de aprenderem certas lições.

Dois anos e meio depois de chegarem na casa, Cindy estava com dez anos. Uma de suas amiguinhas sabia de algumas coisas que aconteciam na casa e sentia medo quando estava lá. Cindy ouviu uma amiga de sua irmã mais velha mencionar algo que havia lido num livro sobre ocultismo, algo que se chamava sessão espírita. Muito corajosa - isso temos que admitir - Cindy chamou a amiguinha para fazerem sua própria sessão, para tentar afastar os muitos espíritos que estavam na casa.

Grande erro.

Trancadas num dos quartinhos em que mais ocorriam fenômenos, as duas tentaram entrar em contato... apenas para, segundos depois, serem derrubadas no chão e terem seus cabelos puxados por uma força invisível, que as manteve presa ali por alguns minutos, oprimindo as duas, que gritavam em desespero e juravam em voz alta nunca mais fazer aquilo.

Algum tempo depois, Nancy abriu a porta do quartinho e libertou as duas.

Um aspecto peculiar é que quase sempre que alguém na casa passava por uma experiência mais forte, algo impedia que as pessoas que estavam em outros cômodos ouvissem qualquer coisa de anormal. As meninas passaram a usar a expressão "estar na bolha" pra descrever o acontecimento. Nesse evento do quartinho ocorreu a mesma coisa. Nancy abriu a porta porque sentiu que havia algo de errado, mas jurou não ter ouvido os gritos histéricos da irmã mais nova e da amiguinha.

O curioso é que algum tempo depois, um erro parecido seria cometido e também com Nancy e Cindy envolvidas. Uma amiga das meninas chamada Katy era conhecida por "aprontar". Contrariando o que Lorraine Warren havia dito numa de suas visitas à casa, as três resolveram usar um tabuleiro Ouija para tentar entrar em contato e expulsar os espíritos da propriedade. Dessa vez a invocação foi ainda pior do que a anterior, pois as três ouviram um gemido sobrenatural se transformar num rugido sobrenatural. Dessa vez, não apenas sentiram uma presença, mas viram uma presença que as manteve presas por alguns minutos e tinha forma animalesca.

Carolyn, quando soube depois, ficou furiosa.

Anos depois, Cindy também admitiu que numa outra ocasião, ela também viu a aparição da mulher com o "pescoço quebrado" que atormentou sua mãe durante anos, embora esse não tenha sido o pior acontecimento que ocorreu com ela.

Certa vez, Sam, o amigo de Roger e Carolyn foi com a família passar o final de semana na casa dos Perron. Filme e pipoca garantiram a diversão das crianças. No entanto, para que as visitas ficassem bem acomodadas, as cinco irmãs foram dormir num único quarto. Por volta das três da manhã, Cindy acordou e viu uma massa parecida com uma nuvem negra pairando sobre Andrea. Parecia respirar junto com ela, como se estivesse sugando a energia da garota - de fato, no dia seguinte, Andrea acordou com a aparência um tanto cansada.

Cindy observou a aparição por alguns momentos e, quando se apoiou devagar nos cotovelos pra observar melhor, a massa se moveu em sua direção, como se tivesse percebido estar sendo observada. Cindy sentiu algo segurar seus tornozelos e a garota foi arrastada, aos gritos, pra fora do quarto. 

Ninguém acordou.

Quando começou a pedir para que Deus a ajudasse, subitamente o fenômeno parou. Cindy, chorando, percebeu que havia feito xixi no pijama e teve que reunir coragem para descer à lavanderia - onde também ocorriam acontecimentos assustadores - para buscar roupa limpa.

April era a caçula da família. Quando os Perron se mudaram para Harrisville em janeiro de 1971, ela tinha apenas cinco anos. Por ser a filha caçula, April passava bastante tempo brincando sozinha enquanto as suas quatro irmãs estavam na escola. Isso lhe dava acesso a todos os brinquedos.

Havia um pequeno cômodo no andar de cima ficava no mesmo lugar que uma chaminé, desativada anos antes dos Perron irem morar lá. Esse quartinho acabou sendo adotado por April e se tornou seu local favorito para brincar. Num certo dia, ela foi visitada por uma presença que já havia sentido ali havia algum tempo: o fantasma de um garotinho.

Num dos cantos do cômodo havia uma portinha. Foi de lá que o garotinho saiu. Ele abriu a porta cauteloso e parecia estar com muito medo. Antes de entrar, colocou a cabeça pra dentro e olhou pros lados, como se temesse alguém que poderia estar ali. April o recebeu com um sorriso. O garotinho entrou e se sentou no chão, a uma distância segura dela. Segundo a própria April, mais de trinta anos depois:


"O nome dele é Oliver Richardson. Ele nunca falou comigo, mas de alguma forma ele conseguia se comunicar sem falar. Ele me disse seu nome em silêncio, ou eu dei o nome a ele. Não consigo explicar como, mas sei que esse era seu nome. Ele estava sempre no andar de cima, no quarto da chaminé. Até onde sei, era ali que ele ficava e nunca ia pra outro lugar. Ele se esconde atrás da portinha. Sempre que eu subia para brincar, ele espiava pela portinha antes de entrar, como se pra saber se estaria a salvo. Ele saía hesitante, olhando ao redor de novo antes de sentar do meu lado no chão. Ele se sentia confortável comigo. Sei que sentia. De certa forma, nós confortávamos um ao outro. Ele nunca participava da minha brincadeira. Mesmo assim, ele pegava meus bonequinhos e olhava pra eles, fascinado. Ele os revirava nas mãos, os analisava de todos os ângulos. Quando ele ia embora, ele entrava no espaço entre as calhas, tão cuidadoso como quanto saía de lá., primeiro espiando dentro e depois olhando para trás, como se temesse estar sendo seguido. Eu sei que ele estava sempre escondido ali, com muito medo de algo. Não tenho certeza do que, ou mais precisamente, de quem. Ele nunca me revelou isso. O que ele compartilhava era o medo que fazia parte de sua existência. Ele morava ali há muito tempo e eu tenho certeza de que ainda está na casa, sozinho. Ele foi abandonado, esquecido há muito tempo. Eu sei, em meu coração, que sua vida foi trágica. Como eu era criança, podia sentir seu pavor, a dor em que ele estava e tudo o que eu podia fazer-lhe era companhia. Por que ele me escolheu, eu me sentia compelida a protegê-lo. Não contei isso a ninguém, exceto a Cathi e só muitos anos depois. Quando perdi minha inocência e mudei, por causa da idade, eu também o abandonei. Isso me causou tristeza e arrependimento através dos anos. Nancy deu (sem a permissão de ninguém) todos os brinquedos do quartinho pra uma família carente da vizinhança. Ela teve boas intenções, mas partiu meu coração chegar em casa um dia e ver todos os objetos da minha infância longe, como se eles nunca houvessem existido. Eu lamentei a perda e nunca mais voltei ao quartinho. Nancy não tinha idéia do que tinha feito. Ajudou generosamente os vivos, mas roubou de sua própria irmã o que restava de sua infância e, com isso, tirou de duas almas solitárias os brinquedos que ambos adoravam e dividiram. Eles eram tudo o que Oliver tinha e então foram embora. Eu era tudo o que Oliver tinha e fui embora. Ele me perdeu e eu o perdi. Quando estava mais velha e me mudei pro quarto do meio, ele de vez em quando abria a porta do quartinho e espiava, pra que eu soubesse que ele estava ali e eu o ignorava. Quando eu cresci mais, de vez em quando ele olhava pro quarto de Nancy, do mesmo quartinho. Nós já éramos adolescentes e fazíamos coisas de adolescentes. Eu percebia que ele me olhava ocasionalmente, por uma fresta da porta. Era nessas visitas que seu semblante triste se transformava numa expressão de incerteza, decepção e desdém quando eu não o reconhecia. Nenhuma das minhas irmãs o via, então eu o ignorava. Não sei bem porque. Acho que é por que ele representava uma época da minha vida que já havia passado. Ele estava preso na idade da inocência que nós compartilhamos, destinado a ficar assim para sempre, uma época que eu queria de volta, mas nunca conseguiria. Eu sentia com certeza de que a vida do garoto que eu conhecia como Oliver Richardson foi interrompida com alguma forma violenta, abuso ou negligência. A verdade dolorosa é que sua breve vida foi terrível, mas a verdadeira tragédia foi seu eterno cativeiro. Ele continua prisioneiro em uma casa que oferece a ele nada além de medo, solidão e isolamento. Eu conheço o sentimento e sei que ele continua como uma vítima em sua morte. Eu ainda lamento a perda dele e sempre lamentarei."


Uma impressão que eu já havia tido com o primeiro livro e que, de certa forma, confirmei com o segundo é que não se tratava apenas de uma casa mal-assombrada. Quer dizer, é isso também, mas por se tratar de uma propriedade construída nos anos de 1700's, a quantidade de eventos humanos - leia-se mortes e sofrimento - é incalculável.

A própria Andrea sempre menciona em palestras e entrevistas que se trata de um portal interdimensional. Alguns relatos na segunda metade do livro de fato corroboram essa idéia, por mais inacreditáveis que possam parecer.

Um elogio que eu faço com relação à narrativa dela é que ela nunca afirma saber a verdade absoluta. Todo o conhecimento que ela adquiriu vivendo os dez anos na casa ela admite como teorias. Ela mesma admite que não sabe tudo.

A meu ver, esse foi o erro de Ed e Lorraine Warren, segundo os relatos de Andrea. Ela reitera - várias, várias e várias vezes - que o casal tinha as melhores intenções quando se aproximou da família oferecendo ajuda. Particularmente, eu nem duvido muito disso, mas as ações deles também me deram margem pra dúvida. A impressão que eu tive é que o casal queria usar o caso também pra alavancar as próprias carreiras de investigadores paranormais. Um tempo depois da primeira visita que fizeram à casa, pessoas estranhas e curiosos vez ou outra batiam na porta dos Perron - você sabe como as pessoas conseguem ser estúpidas quando querem. Isso se deu ao fato de que o casal Warren passou a mencionar o caso da família Perron em suas palestras, dando detalhes sobre o endereço do local.

Além disso, quando ocorreu a sessão espírita que quase custou a vida de Carolyn, os Warren levaram para a casa toda uma equipe técnica, a fim de filmar - segundo eles, documentar - o evento. Também é preciso salientar que a tal sessão foi feita sem o consentimento de Roger e Carolyn. Os Perron simplesmente chegaram na casa um certo dia e foram entrando.


Como eu disse no começo desse texto, o volume 2 tem os mesmos problemas do volume 1 - sobretudo no primeiro 1/3 do livro - mas a força da história sustenta o livro.


Texto sobre o Volume 3, clique aqui.


sábado, 16 de janeiro de 2021

"Pelo bem da sua família, deixe as luzes acesas à noite"

 

Um dos grandes filmes lançados na década passada foi, inegavelmente, Invocação do Mal (2013). Um dos aspectos que mais chamaram a atenção foi o fato de ser baseado em acontecimentos reais. Há outros exemplos de histórias reais sobre casas mal-assombradas que viraram livros e, ocasionalmente filmes. Provavelmente o mais famoso deles é o caso de Amityville.

No entanto, a publicação do livro Horror em Amityville foi repleta de polêmicas. Embora a possibilidade de que muita coisa estranha realmente aconteceu naquela casa, toda a atenção que a mídia deu ao caso acabou também colocando em xeque a veracidade integral da obra. Há muitos relatos contraditórios através dos anos e a história real acabou sendo esmaecida por tudo isso.

Um dos diferenciais da história da Família Perron se compararmos ao caso de Amityville é o fato de que quem contou a história é uma participante ativa da história: Andrea Perron, a filha mais velha do casal Roger e Carolyn Perron. Embora os fatos principais relatados nos livros se passem entre 1970 e 1980, apenas em 2007 Andrea decidiu contar a história, principalmente porque a própria família era reticente quanto a revelar o que aconteceu. Segundo ela, o mundo amadureceu espiritualmente e esses assuntos deixaram de ser um tabu.

Infelizmente, a trilogia House of Darkness, House of Light ainda não foi publicada fora dos Estados Unidos. Devido ao alto custo das edições importadas, eu demorei certo tempo pra adquirir os livros, mas graças ao formato ebook, em dezembro comprei o primeiro volume - a diferença de preço é gritante: $150 a edição física e $15 a edição digital.

Um pouco antes, apenas por curiosidade, olhei alguns comentários de pessoas que leram o livro. A maioria reclamava que o livro "enrolava" demais, que deveria ir direto ao ponto. Vi esse tipo de comentário de mais de um leitor.
Em parte, concordo com esses comentários. O livro é bem escrito, mas mal editado. Alguns acontecimentos são mencionados mais de uma vez, assim como algumas reflexões da autora. Não discuto as reflexões em si, mas o fato de algumas delas serem mencionadas mais de uma vez.
Um outro aspecto do livro que também é questionável é a falta de uma linearidade nos acontecimentos. Se, em um momento está sendo contado algum evento ocorrido em 1971, no capítulo seguinte estamos vendo algo que ocorreu em 1979, um ano antes da família deixar a casa em Harrisville. Mesmo isso sendo compreensível - dificilmente alguém se lembra da ordem de certos acontecimentos na sua vida depois de quase quarenta anos - isso atrapalha um pouco a leitura. Acredito que uma caprichada melhor na edição resolveria isso. Uma organizada melhor na ordem das coisas.

No entanto, esses problemas técnicos são compensados por uma história extremamente interessante. O lado bom da prolixidade de Andrea ao contar a história é que ela coloca o máximo de detalhes possíveis em tudo o que aconteceu. Isso ajuda também a nos familiarizarmos com a Família Perron. Até mais do que personagens fictícios, realmente nos importamos com essa família.

Roger e Carolyn Perron adquiriram uma casa nos subúrbios de Cumberland, Rhode Island em 1964. A casa tinha um quintal nos fundos ideal para suas cinco filhas brincarem. Na verdade, o que pesou na escolha dos pais naquele local foi a qualidade das escolas na região. Por um tempo isso deu certo, mas no verão de 1970, uma mudança repentina na vizinhança alterou a convivência dos Perron ali.
As cinco filhas do casal Perron
De uma hora para outra, muitos jovens da vizinhança se tornaram delinquentes. Em uma ocasião, durante uma viagem familiar, a casa foi invadida e depredada severamente. Até mesmo os gatos da família foram afetados. Um filhotinho foi encontrado morto quando a família retornou e a gata adulta estava dentro de casa, escondida. Outros filhotes simplesmente desapareceram. Pouco tempo depois, um garoto vizinho deles confessou ter "testemunhado" os atos de vandalismo. Não foi o único acontecimento traumático que ocorreu com a família. Mais ou menos na mesma época, a cachorrinha que eles tinham foi atropelada na frente das meninas. Isso, entre algumas outras coisas fez com que Carolyn passasse a se sentir insegura na vizinhança. Ela começou a tentar convencer Roger a mudar a família para algum lugar no interior. Roger dizia que eles não estavam em condições financeiras de tal mudança, ainda mais tão repentina. Se eles fossem planejar alguma coisa do tipo, precisariam de algum tempo.

Roger trabalhava como vendedor e quase sempre passava dias fora de casa. Foi totalmente por acaso que, durante uma dessas ausências do marido, Carolyn se deparou com um anúncio num jornal sobre uma propriedade no interior à venda. Mesmo se sentindo culpada por não contar a Roger, Carolyn marcou uma visita. Deixou as meninas aos cuidados de uma amiga próxima e fez a relativamente curta viagem até Harrisville, 30km a oeste de Cumberland.
Carolyn se encontrou com a agente imobiliária que a levou até a propriedade. No caminho, a agente aproveitou para mostrar para Carolyn os principais pontos históricos da cidade.
A propriedade em Harrisville, em recente imagem de satélite 

A casa fica na Round Top Road, uma estrada que corta uma série de bosques ao norte de Harrisville. Mesmo hoje, é uma região pouco habitada, então tudo leva a crer que era ainda mais inóspita na década de 1970.

Carolyn ficou absolutamente encantada pelo local. Em contraste com a paisagem urbana a que estava acostumada, a casa no campo parecia um paraíso: 200 acres de terreno ao redor de uma casa de dois andares construída mais de cem anos antes, rodeada por árvores frutíferas, um pequeno celeiro e até mesmo um pequeno riacho aos fundos. Carolyn também simpatizou imediatamente com o Sr. Kenyon, o proprietário da casa na ocasião.
Agindo totalmente por impulso, ela deu um sinal de 500 dólares para que eles segurassem a casa por um tempo. Era quase toda a economia que ela e Roger tinham no banco.
Ela só precisava agora convencer o marido.

Quando Roger voltou, as meninas - Andrea, Nancy, Christine, Cynthia e a caçula April - estavam fora, estrategicamente. A mesma amiga que cuidou das meninas durante a "travessura" de Carolyn, as levou para um passeio, temendo que Roger não reagisse bem ao "sumiço" repentino das economias da família.
Carolyn conseguiu convencer Roger a pelo menos "dar uma olhada" no local antes de negar por completo. Alguns dias depois, toda a família foi conhecer aquela que seria sua residência pelos próximos dez anos - Roger, por fim, ficou ainda mais encantado com a casa do que a própria Carolyn.

Mesmo depois do negócio fechado, Carolyn não queria se mudar antes do Natal, então apenas em janeiro de 1971 a Família Perron se mudou definitivamente para Harrisville.

Fazia muito frio no dia da mudança. Enquanto a família tirava as caixas de dentro do caminhão e as levava para dentro da casa, o Sr. Kenyon empacotava seus últimos pertences. Ninguém se deu conta no dia, mas as meninas já teriam seu primeiro contato paranormal: enquanto passavam pela sala onde o Sr. Kenyon empacotava suas coisas, as garotas notaram um homem encostado numa parede num canto. Ele tinha um leve sorriso no rosto e olhava fixamente para o agora ex-dono da propriedade. Algumas das garotas até mesmo cumprimentaram o homem - que usava roupas de um século antes - mas o homem não respondeu.

Antes de ir embora, O Sr. Kenyon convidou Roger pra uma pequena caminhada do lado de fora - algo estranho, pelo extremo frio que fazia - e fez um alerta: "Pelo bem de sua família, deixe as luzes acesas à noite". Roger não entendeu o conselho, já que Kenyon não deu mais detalhes.

Algum tempo depois, Sr. Kenyon retornou para uma visita social. Os Perron tinham se afeiçoado bastante ao homem, que sempre fora gentil e gostava muito das meninas. Durante o dia que passou lá, perguntou à Carolyn: "Está tudo bem por aqui?" Carolyn respondeu que "a casa faz uns barulhos estranhos, mesmo tarde da noite quando o vento já está mais fraco".
Carolyn Perron
Demorou algum tempo até que Carolyn começasse a desconfiar que havia algo de incomum com a casa. O principal motivo dessa demora é que nenhuma delas - Roger passava muito tempo viajando - comentava com as outras sobre as estranhas ocorrências na propriedade. E eram várias ocorrências. Entre elas, objetos pessoais que mudavam de lugar quando não havia ninguém no cômodo. Isso com cinco garotinhas - Andrea, a mais velha, tinha 12 anos - morando na mesma casa resultava em acusações e brigas. Outro fenômeno só revelado entre elas depois era a sensação que todas sentiam de estarem sendo vigiadas, mesmo quando sozinhas em diferentes aposentos da casa.
A propriedade também era fria demais, mesmo considerando o inverno que passavam. Carolyn sentia isso mais do que qualquer um. Geralmente quando esse frio era mais intenso, um cheiro desagradável o acompanhava também.
Nenhuma das garotas gostava de ficar muito tempo perto da porta do porão. Foi lá que duas delas viram um fantasma num canto atrás da porta, justamente no dia em que se mudaram para lá. Quando, meses depois, as meninas começaram a compartilhar entre elas os eventos estranhos na casa, todas admitiram sentir um certo desconforto ali. Infelizmente, a porta do porão ficava num dos corredores principais da casa, passagem obrigatória para ir de um lugar para outro.

Cynthia, a segunda mais nova, foi a primeira a ter um contato direto com as muitas entidades que existem na casa. Numa certa manhã, o ônibus escolar chegou e ela era a única das filhas que ainda não estava pronta. Seus livros estavam no quarto de Andrea, em cima da cama. Enquanto as demais iam para o ônibus, Cindy entrou correndo em casa, só pensando em pegar os livros no andar de cima. Assim que passou pela soleira da porta, ela foi interceptada por uma figura saída do porão, justamente no caminho dela. A figura não tinha uma forma definida, era algo mais parecido com uma névoa, mas sem conseguir parar a tempo, Cindy passou diretamente através da aparição. Assim que passou, o ar à suas costas se tornou gelado e ela sentiu um cheiro horrível no ar, assim como chegou a aspirar um pouco da coisa quando passou. Cindy começou a tossir violentamente, mas a buzina do ônibus tomou sua atenção. A garotinha conseguiu pegar o ônibus a tempo, mas uma hora depois Carolyn teve que buscá-la na escola. Cindy adormeceu durante a aula e isso preocupou seus professores. Pelos próximos dois dias, a garota dormiu a maior parte do tempo em casa e ninguém suspeitou de algo além de uma gripe.

Carolyn começava a ficar extremamente incomodada com o frio dentro da casa, mas também estava claro que ela sentia mais frio do que outras pessoas. Em algumas situações, ela conseguia ver o vapor de sua respiração enquanto qualquer pessoa que estivesse junto a ela parecia completamente confortável com a temperatura. Ela também reparou que alguns pontos da casa eram mais frios do que outros. 
Quando compraram a casa, as duas lareiras estavam seladas e quando questionado sobre isso, Sr. Kenyon dava respostas evasivas. 
Carolyn também passou a sentir desconforto físico dentro da casa. Perda de peso, vontade de dormir o dia inteiro, falta de energia, dores no corpo - sobretudo nas costas e pescoço. Mesmo Roger e as meninas começaram a reparar.

Uma vizinha apareceu para uma visita um dia. Carolyn estava ansiosa por fazer novos amigos, já que estava numa cidade ainda estranha pra ela, então o que aconteceu nesse dia atrapalhou parte desses planos: enquanto as meninas entretiam a vizinha na cozinha, Carolyn estava terminando de tomar um banho. As meninas foram surpreendidas por barulhos vindo do banheiro e todas - incluindo a vizinha, Sra. Pettigrew - correram para lá. Ao abrirem a porta, viram o porta toalhas suspenso no ar, batendo nas costas de Carolyn, como se alguém invisível estivesse agredindo a dona da casa. Todas viram isso acontecer. Em seguida o porta-toalhas caiu no chão. Carolyn ficou com alguns hematomas nas costas.

Depois de ter certeza de que Carolyn estava bem, a Sra. Pettigrew disse que precisava ir embora. Antes de ir, disse à Carolyn: "Os Kenyons deixavam as luzes acesas durante a noite. Todas as luzes... todas as noites." 
Apesar de ter demonstrado simpatia à Carolyn, a vizinha nunca mais voltou lá.

Nos momentos em que Roger estava em casa, ele sempre tentava encontrar explicações lógicas para todos os eventos estranhos que Carolyn ou alguma das garotas contava pra ele. As portas que se abriam sozinhas provavelmente por haver algum desnível na fundação da casa - ignorando que algumas portas se destrancavam sozinhas antes de serem abertas por algo. Por muito tempo, Roger agia com ceticismo quanto a todos esses eventos.

Uma das aparições mais frequentes na casa era a do homem que as garotas viram no dia da mudança. Elas o apelidaram de Manny (de "man", homem). Durante todos os dez anos em que os Perron viveram em Harrisville, ele era uma presença constante na casa. No entanto, era uma presença pacífica. As meninas até mesmo o viam como alguém que estivesse zelando por elas

Outra presença sobrenatural constante na casa eram os Baker Boys, geralmente vistos no patamar da escada que levava aos quartos. Posteriormente, pesquisando sobre o passado da propriedade, Carolyn descobriu sobre a história de um pai e um filho que viveram e morreram naquela casa, provavelmente os mesmos que eles viam constantemente.
Carolyn e a lareira, depois de reaberta

Roger, em parte por passar grande parte do tempo viajando mas, principalmente por ser cético por natureza, demorou mais do que o restante da família para aceitar os eventos bizarros que aconteciam, mas mesmo isso veio a acontecer posteriormente. Um dos primeiros fenômenos aparentemente inexplicáveis que tirou o patriarca do sério foi o aparecimento repentino de um número absurdamente alto de moscas na casa. Nem Roger e nem Carolyn conseguiam descobrir de onde elas viam. Como Carolyn se recusava a chamar uma dedetizadora por conta do risco de contato das meninas com os venenos, matar as moscas virou uma espécie de obsessão para Roger. Por um tempo, parecia ser a única coisa que ele fazia nos dias em que estava em casa.

Já na época em que Carolyn acreditava estar morando numa casa mal-assombrada, as discussões entre ela e o marido eram constantes. Ele a acusava de estar vendo coisas e ela retrucava dizendo que nunca havia mentido para ele e não seria agora que iria começar. Ela não aceitava o fato de que ele não acreditava nela ou nas meninas... até o dia em que estava com Carolyn e viu a porta da despensa abrir sozinha. Usando novamente a explicação de que a casa talvez estivesse um pouco torta, Roger foi até a porta e a fechou com o trico. Pouco depois, o trinco se destrancou... e a porta voltou a abrir. Roger foi até uma gaveta e pegou um rolo de fita adesiva. Em seguida, fechou a porta, baixou o trinco e passou várias voltas de fita adesiva.
No dia seguinte, de manhã, Roger encontrou a porta novamente aberta e a fita adesiva toda picotada no chão.
Foi um dos motivos que o fez mandar as meninas trocarem de roupa, pois eles iriam à igreja.

Cansada de sentir frio o tempo todo, Carolyn decidiu que iria reabrir a lareira. Roger estava fora de casa nessa época e a mulher decidiu ela mesma começar o serviço. Dias depois, com a lareira reaberta, Carolyn começou a se sentir um pouco melhor, desde que estivesse sempre por perto pra se aquecer.
Não muito tempo depois, numa noite em que a casa estava tranquila - e Roger estava fora novamente - Carolyn se preparava para ir pra cama. As meninas já estavam todas dormindo no andar de cima - o quarto de Roger e Carolyn era o único no térreo - quando ouviu um som estranho vindo da sala. Quando foi verificar, notou que a lareira que ela havia deixado acesa estava agora apagada e a sala mergulhada na escuridão. Carolyn ouviu então um som às suas costas e quando foi verificar o que era, viu seu quarto em chamas. Mesmo em pânico e desesperada pelas meninas, Carolyn ficou petrificada. Não conseguia se mover enquanto assistia as chamas se espalharem e iluminarem todo o andar de baixo. Depois de um tempo, o fogo desapareceu e Carolyn não encontrou nenhum vestígio dele. Nenhum móvel estava danificado.

Apesar da Família Perron ser numerosa, os primeiros meses em Harrisville foram, de certa forma, solitários para Carolyn. Roger se recusava a acreditar no que ela dizia sobre os acontecimentos na casa e as meninas ainda não haviam revelado nada sobre o que elas também presenciavam.
O casal tinha um amigo advogado. Certa manhã, solitária, Carolyn ligou pra Sam. Precisava desabafar.
Para a surpresa de Carolyn, depois de contar bastante coisa, Sam ficou em silêncio por um tempo do outro lado da linha. Depois, falou:
 - Querida, me parece que vocês compraram uma casa mal-assombrada
 - Você acha?
 - Acho.
 - Então você acredita em mim.
 - Claro que acredito em você. Minha casa em East Side é mal-assombrada.

Posteriormente, Sam fez uma visita à casa deles. Conversando com o casal, Sam contou sobre suas próprias experiências e assegurou para Carolyn de que não havia perigo. Era só questão de ignorar os fenômenos, quando ocorressem. Por um tempo, Carolyn ficou aliviada. Roger já estava um pouco mais flexível sobre o assunto, depois de uma longa conversa que teve com Carolyn, na qual ela contou tudo - inclusive o relato de Sam ao telefone. Não apenas isso, mas Roger prometeu à Carolyn que a partir de então só iria pegar trabalhos na região, para que conseguisse voltar pra casa todas as noites.

Talvez percebendo que seu casamento não estava na melhor época, uma noite Roger levou Carolyn para jantar fora e ao cinema. Deixaram as meninas com uma babá. Era por volta de meia-noite e quinze quando voltaram.
Muitas horas depois, Carolyn acordou ouvindo passos no quarto. Ainda sonolenta, esticou o braço, sabendo que reconheceria qualquer uma das filhas apenas pelo toque. "O que foi, querida?", disse ela. Como não houve resposta, Carolyn abriu os olhos e viu a figura grotesca de uma mulher flutuando sobre ela, ao mesmo tempo que sentiu um cheiro horrível e muito frio. A mulher usava um vestido antigo e tinha a cabeça inclinada de forma não natural pra um dos lados, como se tivesse o pescoço quebrado. Não havia um rosto definido, apenas uma aparente massa de carne em decomposição e um emaranhado de coisas, como uma mistura de ninho de passarinho com teias de aranha.
A mulher flutuava ao lado da cama e sobre Carolyn, que começou a chutar Roger para que ele acordasse, arranhando a perna do marido com as unhas do pé. Num ímpeto, conseguiu se mover um pouco e agarrou os cabelos do marido, puxando para que ele acordasse. Roger parecia sem vida. Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, a aparição desapareceu.
Carolyn, ainda se recuperando do terror, se levantou e pegou um caderninho, pra escrever o que tinha visto, rapidamente, sem se preocupar se fazia sentido ou não:

o vestido verde enferrujado feito à mão com cinto de tecido tingido à mão apertado na cintura com uma fivela oval coberta com o mesmo tecido roupas vintage um ser de época feia cabeça de colmeia um ninho de vespas pescoço quebrado pendurado para o lado sem olhos sem boca teia de aranha cinza sem mãos sem pés apenas flutuando acima de mim frio, tão frio, não posso respirar a morte vil, malvada, nenhuma cômoda vai se aproximando frio, não posso respirar tão perto, tão perto quer me tocar, não me toque, a cabeça inclinada em um ângulo quer um beijo Querido Senhor Oh meu Deus



Além da descrição, Carolyn também fez um desenho da aparição. Ela não voltou a dormir e de manhã, Andrea desceu as escadas, dizendo que havia tido um pesadelo com a mãe. Viu o caderno sobre a mesa, assim como o desenho que Carolyn havia feito.

"Mãe, eu conheço ela. Sonhei com essa coisa. Isso me acordou. Queria machucar você".

Carolyn tomou gentilmente o caderno da filha.

"O que foi isso? Um pesadelo? Eu sonhei com isso também. Ela estava flutuando sobre você. Eu acordei, mas não conseguia me mexer. Você gritava, mas eu não conseguia me levantar pra te ajudar. Mas podia te ouvir."

Incapaz de mentir para a filha, Carolyn chamou Andrea para a cozinha, pra tomarem um café e conversar. Andrea quis saber se a mãe sentiu medo e ela respondeu que sim. A filha mais velha também deu mais detalhes do sonho que tivera.
Carolyn, por sua vez, evitou dar maiores detalhes sobre sua experiência de poucas horas antes, principalmente pra não assustar a filha.
 - Mãe, você também ficou assustada? Eu fiquei assustada por você.
 - Sim, Annie. Eu me assustei também.
 - E vejo coisas, às vezes. Ouço sons... coisas assustadoras que acontecem aqui.
 - O que você viu?
 - Eu vejo sombras no meu quarto, mesmo com pouca lua, no escuro. às vezes eu ouço vozes antes de dormir. Eu não consigo entender o que elas me dizem. Eu não gosto de ir no banheiro sozinha. Parece que estou sendo observada. Como se estivessem olhando enquanto eu... você sabe. É embaraçoso. As coisas se movem na minha mesa quando estou fazendo lição de casa. E você sabe o que aconteceu com a nossa lousa.! Mãe... pode me falar a verdade. Nós temos fantasmas?

Carolyn percebeu que era tarde demais para evitar o assunto com sua filha mais velha. Mesmo assim, disse pra ela não mencionar o assunto às mais novas, pra não assustá-las. Andrea concordou e disse que iria voltar pra cama, pois seu sono tinha voltado. Carolyn a acompanhou até a escada, onde encontrou Cynthia, chorando. A menina disse ter tido um pesadelo. Andrea voltou pro quarto e Carolyn levou Cindy pro sofá, onde a menina contou sobre seu sonho... que era idêntico ao que Andrea havia descrito para a mãe minutos antes.
Na mesma manhã, Roger acordou com estranhos arranhões em suas costas.

Carolyn contou o que aconteceu para Sam.
(ele mesmo, durante a visita que fez a Carolyn no dia seguinte, presenciou a porta da despensa se destrancar e abrir sozinha, antes da caçula April dizer que "uma coisa ruim tinha acontecido ali")
Carolyn queria que Sam os ajudasse com sua experiência de advogado, pra saber se poderiam desfazer o negócio e se livrar da casa. Sam disse que iria pesquisar sobre essa possibilidade e, dias depois, disse que não havia nada que pudessem fazer.

Aos poucos, as meninas começaram a compartilhar entre si os estranhos eventos que ocorriam com cada uma. Não muito tempo depois, contaram para Andrea, a mais velha, que se responsabilizou em contar para Carolyn quando chegasse a hora.
Numa tarde de junho de 1971, seis meses depois da mudança, Andrea pediu pra falar com Carolyn em particular e disse que suas irmãs - exceto a caçula April - também tinham presenciado fenômenos bizarros na casa. Tantos que ela nem conseguiria se lembrar de todos e que Cynthia parecia ser a que mais tinha tido experiências. Carolyn já desconfiava que esse era o motivo da conversa e pediu para Andrea reunir as outras três, pra uma conversa franca. Logo, Carolyn e as quatro filhas mais velhas - April estava dormindo - estavam juntas, na cozinha.

Carolyn: Annie me disse que vocês notaram coisas estranhas acontecendo  do aqui em casa. É importante me dizerem o que está acontecendo. Se existe alguma coisa assustando vocês, eu quero saber.

(silêncio)

Carolyn: Bem, eu não planejava contar pra vocês, mas eu mesmo tenho visto algumas coisas.

Cynthia: Meus brinquedos mudam de lugar o tempo todo.
Eu tenho meus bonequinhos e bichinhos de fazenda e eles sempre mudam de lugar quando eu saio do quarto, mesmo se for só por uns minutos. Quando eu vou no banheiro, o avião vai pra debaixo da minha cama e o ônibus vai pra dentro o closet. Eu colocava a culpa na April, porque ela brinca no closet o tempo todo, mas não é ela, porque acontece muito depressa. Mais depressa do que qualquer um de nós poderia fazer.

Nancy: Eu ouço passos. No closet... mas também na escada que dá pro meu quarto, sempre subindo. Mas aí eles param na porta. Eu fico pensando que a porta vai abrir e é isso que me assusta mais... a espera. Não saber quem está do outro lado. Às vezes, quando estou no meu quarto, a porta do closet abre sozinha. Quando minhas coisas somem, eu as encontro em lugares estranhos... que eu sei que não as deixei lá. (...) Quando o negócio da porta acontece, fica frio e cheira mal.

Christine: Meus brinquedos se movem também.

Nancy: Eu me sinto sendo observada o tempo todo. Quando eu olho, não tem ninguém, mas alguém está no quarto comigo. Isso me assusta... especialmente no banheiro. Eu sempre levo a Cindy comigo, pra vigiar. E eu nunca vou no quarto da chaminé sem ela. (...) Uma vez eu desci as escadas correndo, quando cheguei no andar de baixo eu vi o telefone fora do gancho, flutuando no ar. Quando cheguei lá, ele caiu no gancho tão rápido que o fio ficou balançando de um lado pro outro. Mas como ninguém estava lá comigo, não contei pra ninguém até agora.

Cynthia: E a geladeira abre sozinha e as coisas são jogadas de dentro pra fora.

Nancy: Todas as portas abrem quando querem ou fecham na minha cara quando estou indo de um cômodo pro outro. Eu vejo sombras no meu quarto À noite, Uma nuvem negra. Eu cubro a cabeça e rezo pra Deus fazer ir embora.

Cynthia: Faz mais frio em alguns cômodos. Quando o medo passa, volta a esquentar. Eu vi um gato correndo pela porta do banheiro e não era o nosso gato e a porta estava fechada! Às vezes minha cama vibra e muda de lugar. Isso me acorda. Chrissy me ajuda a colocar no lugar de manhã. (...) Eu sei que você (para Carolyn) nos coloca na cama à noite, mas outra senhora também. Ela sempre se inclina pra dar um beijo de boa noite. Eu nunca sinto o toque dela, mas sei quando ela está lá. Não é você, mãe. Ela tem um cheiro diferente... de frutas e flores. Então outra pessoa, outra senhora, vem mais tarde, quando está todo mundo dormindo. E ela traz um cheiro tão ruim pro quarto... muito ruim... como alguma coisa morta. Então ela se inclina sobre mim e sinto frio, mas quando ela vai embora, esquenta de novo. É assim que sei que ela se foi. Eu me cubro inteira e rezo. Ela me olha por um longo tempo. Não sei porque. E tem uma garotinha que anda pelo meu quarto chamando pela mãe. A voz dela é muito triste e me faz chorar. Acho que é ela que brinca com meus brinquedos. Ela pode. Tudo bem pra mim.

Carolyn: Muito bem! Vamos vender essa maldita casa!

No mesmo momento que disse isso, todas as quatro meninas, simultaneamente, disseram um sonoro NÃO! A verdade é que elas adoravam a propriedade, adoravam a escola, adoravam os amigos, adoravam o interior. Carolyn podia ver a sinceridade em cada uma delas, mas não conseguia compreender que todas as quatro preferiam se sacrificar e conviver com fantasmas a deixar o paraíso em que estavam.

Mesmo assim, a conversa ainda não havia terminado. Mais algumas coisas foram contadas a Carolyn naquele dia. E antes de colocar as meninas na cama, Carolyn pediu que nenhuma delas mencionasse a conversa a April, a caçula. Tinha esperanças de que pelo menos a caçula fosse poupada dos fenômenos.
(ela estava errada quanto a isso)

Tudo isso ocorre antes mesmo da metade do livro. A partir do momento em que as mulheres da casa admitiram pra si mesmas que a casa realmente era mal-assombrada, o sentimento de cumplicidade delas ajudou um pouco a enfrentar os fenômenos. Mesmo Roger, cético por um bom tempo, teve sua cota de eventos bizarros que testemunhou - um deles, inclusive quando estava sozinho em casa.
Algumas amizades pontuais também serviram pra diminuir a angústia da família. Uma amiga que Carolyn fez a ajudou a pesquisar sobre o passado da propriedade - inclusive a descobrir sobre Bathsheba Sherman, principal "suspeita" de ser o espírito que atormentar especialmente Carolyn mais do que os outros - Carolyn teria outra visita de Bathsheba à sua cama, ainda pior do que a primeira vez.

Vi numa entrevista de Andrea que quem deu o nome ao livro foi Carolyn. A família passou por momentos terríveis na casa em Harrisville, ao mesmo tempo que passou os melhores anos de suas vidas. As meninas cresceram naquela casa. Os Perron só se mudaram em 1980, por insistência de Carolyn, que disse a Roger que não sobreviveria a mais um ano naquela casa.

Depois dos acontecimentos que narrei acima, muita coisa ainda acontece na segunda metade do livro - tantos que nem consigo me lembrar de todos pra incluir nesse texto, mas realmente é possível perceber que a Família Perron também teve momentos mágicos na casa. 

Isso tudo acontece no primeiro livro da trilogia. Acredito que o segundo conte sobre o envolvimento de Ed e Lorraine Warren no caso.

Embora eu ache difícil de acontecer a curto prazo, torço pro livro ser publicado no Brasil um dia.

Texto sobre o Volume 2

Texto sobre o Volume 3